País reúne escala produtiva, recursos naturais e capacidade empresarial, mas o custo de capital, a baixa produtividade e os entraves logísticos dificultam a transformação desse potencial em valor
O Brasil está entre os grandes produtores de alimentos, energia e matérias-primas do mundo. Tem empresas capazes de atender mercados exigentes e regiões, como Ribeirão Preto, que combinam força agroindustrial, pesquisa e serviços especializados. Ainda Por que o Brasil ainda é tão pouco competitivo no mercado internacional?
País reúne escala produtiva e capacidade empresarial, mas juros, inflação, incertezas e gargalos logísticos dificultam a transformação desse potencial em valor
O Brasil está entre os grandes produtores de alimentos, energia e matérias-primas do mundo. Tem empresas capazes de atender mercados exigentes e regiões, como Ribeirão Preto, que combinam força agroindustrial, pesquisa e serviços especializados. Ainda assim, transformar essa capacidade em competitividade internacional continua sendo um desafio.
No Ranking Mundial de Competitividade 2026 do IMD, o Brasil ficou na 65ª posição entre 70 economias. Segundo a Fundação Dom Cabral, parceira técnica do levantamento, o país perdeu sete posições em relação ao ano anterior e apresentou piora nos quatro pilares avaliados: desempenho econômico, eficiência governamental, eficiência empresarial e infraestrutura.
Competitividade não é apenas produzir muito ou registrar um saldo comercial positivo. É conseguir investir, financiar uma operação, cumprir exigências regulatórias e entregar ao comprador internacional com qualidade, prazo e custo previsíveis. Para entender por que o Brasil encontra dificuldades nessa disputa, é preciso olhar para os custos e as incertezas que acompanham a empresa antes e depois da produção.
Juros, inflação e acesso ao crédito entram na mesma conta
Uma indústria que recebe uma oportunidade de exportação pode precisar comprar insumos, ampliar estoques e pagar pelo transporte meses antes de receber do cliente. Uma importadora, por sua vez, precisa financiar a aquisição e manter capital disponível até que a mercadoria seja nacionalizada e comercializada. Quanto mais caro ou difícil for obter crédito, maior será o impacto sobre o preço e a margem dessas operações.
Após a reunião do Copom de setembro de 2026, a Selic foi reduzida para 13,75% ao ano. O corte não elimina o custo de financiamento enfrentado pelas empresas. Nos dados de crédito divulgados pelo Banco Central em agosto, a taxa média das novas operações de crédito livre para pessoas jurídicas chegou a 25,4% ao ano em julho. Trata-se de uma média: as condições efetivas variam conforme a empresa, a modalidade e as garantias oferecidas.
A inflação também dificulta o planejamento. Quando custos de energia, insumos, serviços ou transporte mudam durante uma negociação, a empresa precisa rever preços e estimar riscos. No comércio exterior, essa pressão pode se somar às oscilações do câmbio e do frete.
Fala proposta para aprovação de Cris Fais, diretora da ACCROM: “Para importar ou exportar, muitas empresas precisam financiar etapas da operação antes de receber pela venda. Com juros elevados, crédito mais difícil de acessar e custos sujeitos a mudanças, fica mais complicado investir, formar preços e assumir compromissos de longo prazo.”
Em setembro, a comparação internacional ganhou destaque na chamada “Superquarta”. Enquanto o Brasil reduziu sua taxa básica, o Federal Reserve elevou os juros dos Estados Unidos em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4%, citando a inflação ainda elevada. As decisões dos dois países reforçam a importância de acompanhar as condições financeiras ao planejar investimentos e operações internacionais.
Produtividade depende de gente, tecnologia e processos
O ranking do IMD aponta fragilidades brasileiras relacionadas à produtividade da força de trabalho, à educação básica e às competências profissionais. A OCDE também identifica a produtividade como um desafio para o crescimento sustentado do país.
Ser mais produtivo não significa apenas trabalhar mais rápido. Significa gerar mais valor com melhor organização, qualificação, tecnologia e uso dos recursos disponíveis. Para uma empresa, isso pode envolver reduzir perdas, integrar informações entre áreas, melhorar o planejamento de compras e desenvolver produtos ou serviços que resolvam necessidades mais complexas dos clientes.
No comércio exterior, a qualidade dos processos aparece em detalhes decisivos: documentos corretos, classificação fiscal bem analisada, fornecedores avaliados, prazos realistas e conhecimento das exigências do mercado de destino. Um erro descoberto quando a carga já está em trânsito pode anular parte da eficiência conquistada dentro da fábrica.
O custo logístico não termina no frete
Para uma empresa do interior paulista, chegar ao mercado externo envolve etapas sucessivas: transporte até o porto ou aeroporto, armazenagem, documentação, liberação aduaneira e entrega internacional. O frete é uma parcela relevante dessa conta, mas atrasos, indisponibilidade de equipamentos e despesas não previstas também podem comprometer a margem.
A região de Ribeirão Preto oferece um exemplo. Sua produção sucroenergética e agroindustrial pode ter escala e qualidade para competir globalmente. O preço final, porém, depende também da conexão entre origem, terminais, portos e compradores. Uma operação eficiente na produção ainda pode perder competitividade no caminho até o cliente.
Fala proposta para aprovação de Cris Fais: “Quando falamos de logística, não estamos olhando apenas o preço do transporte. É preciso considerar toda a operação: armazenagem, documentação, prazos, liberação da carga e frete internacional. Uma falha em qualquer uma dessas etapas pode consumir a margem que a empresa levou meses para construir.”
Por isso, a logística precisa entrar na formação do preço desde o início da negociação. Modal de transporte, disponibilidade de equipamentos, condições de armazenagem e responsabilidades contratuais não são decisões que podem ficar para depois do fechamento da venda.
A reforma tributária traz potencial e incertezas
A reforma tributária do consumo, conforme apresentada pela Receita Federal, busca simplificar regras, ampliar a transparência e reduzir a cumulatividade. Se esses objetivos forem alcançados, o novo sistema poderá contribuir para um ambiente de negócios mais competitivo.
Os benefícios, contudo, não chegam de uma só vez. A implementação será gradual: 2026 é o ano de teste da CBS e do IBS; a substituição de ICMS e ISS pelo IBS está prevista para ocorrer entre 2029 e 2032; e a conclusão da transição está programada para 2033. Nesse período, empresas terão de adaptar sistemas, contratos, processos fiscais e métodos de formação de preços.
O desafio imediato é tomar decisões enquanto partes da aplicação prática das novas regras ainda estão sendo definidas. Uma mudança com potencial de simplificação pode, durante a transição, exigir mais análise e preparação dos empresários. O Fundo Monetário Internacional também relaciona os possíveis ganhos de produtividade da reforma à qualidade de sua implementação.
Fala proposta para aprovação de Cris Fais: “A reforma tributária pode representar um avanço importante para a competitividade brasileira. Mas ela não resolve, sozinha, o custo do crédito, a inflação ou os gargalos logísticos. Além disso, durante a transição, o empresário precisa de clareza para decidir e se preparar. Quanto mais previsíveis forem as regras, melhores serão as condições para investir.”
Estratégia pode recuperar competitividade
Os obstáculos estruturais não eliminam as possibilidades de ação das empresas. Quem importa ou exporta pode avaliar, conforme o tipo de operação e os requisitos legais, instrumentos que ajudem a organizar custos e fluxos financeiros.
Entre eles estão os regimes aduaneiros especiais apresentados pelo Siscomex. O drawback, por exemplo, pode ser utilizado em operações que envolvem insumos destinados à produção de bens a serem exportados, desde que sejam cumpridas as condições do regime. Outros instrumentos podem atender situações distintas de importação, armazenagem ou uso temporário de mercadorias. A escolha depende de uma análise técnica da operação; nenhum benefício é automático.
Fala proposta para aprovação de Cris Fais: “Em um cenário de custos altos, a empresa precisa conhecer as ferramentas que já existem. Avaliar regimes aduaneiros especiais, revisar processos e planejar a operação desde o começo pode abrir caminhos para preservar caixa e ganhar competitividade. A estratégia adequada depende de entender profundamente o que aquela empresa importa, produz e exporta.”
Na cadeia sucroenergética, por exemplo, a oportunidade brasileira também vai além da venda de açúcar e etanol. Tecnologia agrícola, automação, bioenergia, equipamentos e serviços especializados permitem agregar valor e atender demandas mais complexas em outros países. Para aproveitar esse espaço, as empresas precisam de investimento, profissionais qualificados e presença comercial construída para cada mercado.
O 65º lugar no ranking de 2026 não apaga as vantagens do Brasil. Ele mostra quanto ainda é necessário avançar para aproveitá-las. Melhorar a competitividade exige enfrentar juros e inflação, elevar a produtividade, reduzir entraves logísticos e oferecer regras mais claras. Ao mesmo tempo, exige que cada empresa conheça suas operações e use, com planejamento, os instrumentos disponíveis para disputar espaço no mercado internacional.




