Mudanças nas regras de emissão e validação aumentam a responsabilidade sobre transportadoras e contratantes de frete. Para Cristiane Fais, CEO da ACCROM, conformidade documental precisa ser tratada como parte estratégica da operação logística.
O transporte rodoviário de cargas brasileiro atravessa uma nova etapa de adequação regulatória. As mudanças relacionadas à emissão e à validação do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT) ampliaram a necessidade de controle sobre informações, processos internos e sistemas utilizados pelas empresas antes da liberação de cada viagem.
Uma pesquisa da Edenred Mobilidade, realizada em junho de 2026 com 261 profissionais de 214 empresas do setor, ajuda a dimensionar esse desafio. Segundo o levantamento, 49% dos entrevistados apontam a necessidade de adaptar processos e capacitar equipes como o principal impacto das novas exigências. Além disso, 59% consideram que o acesso a informações claras sobre as regras é o fator mais importante para uma adaptação segura.
Para Cristiane Fais, CEO da ACCROM Estratégias em Comércio Exterior, os números mostram que a discussão vai muito além do cumprimento formal de uma obrigação.
“Quando uma exigência documental passa a ter potencial para impedir o início de uma viagem, ela deixa de ser apenas uma questão administrativa. Estamos falando diretamente de continuidade operacional, cumprimento de prazos, custos logísticos e qualidade do serviço prestado ao cliente”, destaca Cristiane Fais.
CIOT passa a ocupar posição estratégica na operação
O CIOT é utilizado para identificar formalmente as operações de transporte rodoviário remunerado de cargas. Dentro do novo cenário regulatório, o código deve ser gerado antes do início da viagem e estar devidamente vinculado ao Manifesto Eletrônico de Documentos Fiscais (MDF-e).
A Portaria SUROC nº 6, de 23 de abril de 2026, estabeleceu procedimentos e validações sistêmicas envolvendo geração, retificação, cancelamento e encerramento do código, com as novas exigências entrando em vigor a partir de 24 de maio de 2026, conforme apresentado no material de referência.
Na prática, a mudança aumenta a importância da conferência realizada antes da saída do veículo. Uma inconsistência envolvendo motorista, veículo, transportador, contratante, frete ou documentação pode comprometer a geração do CIOT e, consequentemente, impedir que a operação avance normalmente.
Segundo Cristiane, essa dinâmica exige maior integração entre os diferentes participantes da cadeia logística.
“Uma operação rodoviária depende de informações que transitam entre embarcador, transportadora, motorista, sistemas de gestão, documentos fiscais e plataformas responsáveis pela emissão. Se um elo trabalha com dados incorretos ou desatualizados, o problema pode aparecer justamente no momento em que o caminhão precisa sair”, explica.
Informação e treinamento tornam-se fundamentais
Outro aspecto relevante da pesquisa é a demanda por conhecimento. Enquanto 59% dos participantes apontaram informações claras como principal necessidade para adaptação, 26% indicaram a automação dos processos. Outros 8% mencionaram equipes ou profissionais dedicados à adequação regulatória e 3% destacaram a necessidade de orçamento específico para implementação das mudanças.
Os resultados reforçam que investir somente em tecnologia não resolve todas as vulnerabilidades. Sistemas precisam ser acompanhados por procedimentos bem definidos e profissionais preparados para identificar inconsistências antes que elas afetem a viagem.
“Tecnologia sem processo bem estruturado apenas digitaliza o problema. É necessário entender quem fornece cada informação, quem confere, em qual momento a validação acontece e qual é o procedimento quando surge uma divergência. Treinamento e tecnologia precisam caminhar juntos”, afirma a CEO da ACCROM.
Essa atenção tende a ser ainda mais importante para transportadoras que trabalham com grande quantidade de terceiros, transportadores autônomos ou operações com elevado número de viagens diárias.
Caminhão parado significa custo para toda a cadeia
As consequências de uma falha não ficam restritas à transportadora. O material que embasa esta análise cita relatos envolvendo cerca de 200 caminhoneiros autônomos que teriam permanecido parados por até 20 dias no Distrito Industrial Sul, em Teresina, em meio a dificuldades operacionais relacionadas à emissão do CIOT.
Um caminhão impedido de iniciar ou prosseguir uma operação gera uma sequência de impactos. O motorista perde produtividade; a transportadora precisa reorganizar programação, frota e rotas; e o embarcador pode enfrentar atrasos no abastecimento, produção, entrega ou reposição de estoques.
Para empresas envolvidas com comércio exterior, essa preocupação ganha uma dimensão adicional. O transporte rodoviário frequentemente está conectado a etapas que possuem janelas operacionais específicas, como entrega ou retirada em terminais, processos de consolidação, operações portuárias e conexão com embarques internacionais.
“No comércio exterior, dificilmente analisamos uma etapa de forma isolada. Um atraso rodoviário pode comprometer uma programação portuária ou uma conexão logística posterior. Por isso, prevenir uma inconsistência antes da saída é muito mais eficiente e econômico do que administrar seus efeitos quando a carga já deveria estar em movimento”, ressalta Cristiane Fais.
Volume de emissões aumenta pressão sobre processos e sistemas
Outro dado chama atenção. Segundo informações do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS) reproduzidas no material de referência, o número de emissões de CIOT teria avançado de 1,6 milhão em janeiro para 4,6 milhões em junho de 2026, uma expansão de 187,5% em cinco meses.
Esse crescimento amplia a pressão não apenas sobre plataformas tecnológicas, mas também sobre cadastros, integrações e equipes responsáveis pelas operações.
Por isso, as empresas precisam revisar procedimentos de geração, validação, retificação e encerramento do CIOT, conferir previamente dados cadastrais e integrar, sempre que possível, os sistemas relacionados à gestão de transporte e à documentação fiscal.
Também se torna importante definir claramente os responsáveis pela conferência antes da viagem e estabelecer planos de contingência para situações em que sistemas apresentem instabilidade ou alguma informação seja rejeitada.
Conformidade também é eficiência logística
O novo cenário evidencia uma transformação importante: conformidade regulatória e eficiência operacional estão cada vez mais conectadas.
Para Cristiane Fais, essa mudança deve estimular transportadoras e embarcadores a olhar para seus processos de maneira mais ampla.
“A melhor operação não é apenas aquela que consegue um bom frete. É aquela que antecipa riscos, mantém informações consistentes, prepara as equipes e utiliza tecnologia para reduzir falhas. Quando isso acontece, conformidade deixa de ser vista como burocracia e passa a contribuir diretamente para previsibilidade e eficiência logística.”
Para transportadoras, embarcadores e empresas que dependem diariamente do modal rodoviário, portanto, o momento exige revisão de processos e maior atenção à qualidade dos dados.
O CIOT pode ser apenas um código dentro de uma operação complexa, mas sua emissão e validação passaram a representar uma etapa decisiva para que o veículo possa efetivamente seguir viagem.
Em um ambiente logístico no qual atrasos de algumas horas podem provocar custos em cadeia, informação, treinamento, integração e tecnologia tornam-se instrumentos de gestão de risco. E quanto mais cedo as empresas incorporarem essa lógica às suas rotinas, menor será a exposição a bloqueios, retrabalho e interrupções que poderiam ser evitadas antes mesmo de o caminhão deixar o ponto de origem.




