Acordo Mercosul-UE, Reforma Tributária e gargalos logísticos exigem planejamento e investimentos estruturais

O avanço das negociações e da implementação do Acordo Mercosul-União Europeia, somado às mudanças previstas com a Reforma Tributária do Brasil, projeta um novo cenário para o comércio exterior brasileiro. A combinação desses fatores tende a ampliar significativamente o fluxo de importações e exportações, abrindo novas oportunidades para empresas nacionais ampliarem sua presença no mercado internacional.

No entanto, especialistas alertam que, para que o país aproveite plenamente esse momento, será fundamental enfrentar desafios históricos relacionados à infraestrutura logística. Gargalos em rodovias, ferrovias e portos ainda representam um dos principais obstáculos para a competitividade brasileira no comércio global.

Entre os pontos de atenção está a capacidade operacional dos principais corredores logísticos do país, especialmente aqueles que concentram grande parte do fluxo de cargas destinadas à exportação e importação.

O impacto do acordo Mercosul-União Europeia

Considerado um dos acordos comerciais mais relevantes das últimas décadas, o Acordo Mercosul-UE tem potencial para ampliar significativamente o intercâmbio comercial entre os países do bloco sul-americano e os membros da União Europeia.

Com a redução gradual de tarifas e a ampliação do acesso a mercados internacionais, empresas brasileiras poderão expandir suas operações, diversificar destinos de exportação e aumentar sua competitividade em diferentes setores da economia.

Esse movimento, naturalmente, tende a gerar um crescimento expressivo no volume de cargas movimentadas pelos portos brasileiros, exigindo maior eficiência logística e infraestrutura adequada para suportar a expansão do comércio internacional.

Contudo, segundo especialistas da área, o país precisa estar preparado para absorver esse aumento de demanda.

Porto de Santos no centro das operações

Um dos principais pontos estratégicos desse cenário é o Porto de Santos, considerado o maior porto da América Latina e responsável por uma parcela significativa da movimentação de cargas do comércio exterior brasileiro.

Nos últimos anos, o porto tem recebido investimentos importantes, incluindo leilões de terminais e projetos de ampliação de capacidade. A expectativa é que ele continue crescendo à medida que o comércio internacional se fortaleça.

Ainda assim, existem limitações estruturais que preocupam especialistas.

De acordo com Cristiane Fais, especialista em importação e exportação e CEO da ACCROM Consultoria em Logística Internacional, o Brasil vive um momento promissor no comércio exterior, mas precisa avançar na infraestrutura logística para acompanhar esse crescimento.

“As perspectivas são extremamente positivas para o Brasil com o acordo Mercosul-União Europeia e com a simplificação tributária. Porém, precisamos ter um olhar estratégico para a infraestrutura. O Porto de Santos já é uma potência, mas as estradas que dão acesso ao porto e às cidades da região, como Santos e Guarujá, não suportariam, hoje, o aumento projetado de fluxo de cargas”, afirma.

Segundo ela, embora o país conte com outros portos importantes, Santos continua sendo o principal hub logístico para cargas provenientes de estados como São Paulo, Minas Gerais e regiões do Centro-Oeste.

Reforma Tributária pode alterar rotas logísticas

Outro fator que tende a impactar diretamente a logística do comércio exterior brasileiro é a Reforma Tributária, cuja implementação será gradual e deve ocorrer até 2033.

Hoje, muitos portos brasileiros são escolhidos por empresas importadoras e exportadoras devido a benefícios fiscais regionais — os chamados corredores tributários. Esses incentivos acabam tornando determinados terminais mais competitivos, mesmo quando não estão geograficamente mais próximos das operações logísticas.

Com a reforma, no entanto, esses diferenciais tendem a perder relevância.

“Hoje existem os chamados corredores tributários, que tornaram determinados portos mais atrativos por vantagens fiscais. Com a Reforma Tributária, prevista para implementação gradual até 2033, esses diferenciais tendem a perder força. Muitos portos que eram escolhidos por benefício fiscal podem deixar de ter a mesma relevância competitiva”, explica Cristiane Fais.

Esse novo cenário pode levar a uma reorganização das rotas logísticas, com maior concentração de operações em portos considerados mais estratégicos do ponto de vista operacional.

Dependência do transporte rodoviário

Outro desafio histórico da logística brasileira é a forte dependência do transporte rodoviário.

Atualmente, grande parte das cargas movimentadas no país depende de rodovias para chegar aos portos. Esse modelo aumenta custos logísticos, eleva riscos de congestionamentos e reduz a eficiência das cadeias de suprimentos.

Para especialistas, o fortalecimento de outros modais é essencial para garantir maior eficiência no transporte de mercadorias.

“Se não houver expansão das ferrovias e incentivos para outros modais, como o ferroviário e o pluvial, a tendência é de aumento da concentração no Porto de Santos. Isso pode gerar congestionamentos e gargalos ainda maiores”, alerta Cristiane.

Além disso, a malha ferroviária brasileira ainda enfrenta desafios estruturais, como a concentração da operação em poucas empresas e a necessidade de ampliação da rede.

Cabotagem como alternativa estratégica

Entre as soluções apontadas por especialistas para melhorar a eficiência logística do país está o fortalecimento da cabotagem, modalidade de transporte marítimo realizada entre portos do mesmo país.

Nesse modelo, grandes volumes de carga chegam a portos estratégicos, como Santos, e são redistribuídos para outros destinos por meio de embarcações menores, reduzindo a dependência do transporte rodoviário.

A expansão da cabotagem pode contribuir para aliviar a sobrecarga nas rodovias e melhorar a integração logística entre diferentes regiões do país.

Integração entre política tributária e infraestrutura

Para que o Brasil consiga aproveitar plenamente as oportunidades geradas pelo acordo entre Mercosul e União Europeia, será essencial alinhar políticas públicas, investimentos em infraestrutura e planejamento logístico.

Segundo especialistas, o sucesso da Reforma Tributária também dependerá da capacidade do país de modernizar sua infraestrutura de transporte e ampliar a eficiência dos corredores logísticos.

Isso inclui investimentos em portos, rodovias, ferrovias e também no transporte hidroviário, que ainda é pouco explorado no país.

“O Brasil tem uma oportunidade histórica de se posicionar ainda melhor no comércio internacional. Mas, para isso, precisamos alinhar política tributária, infraestrutura e estratégia logística. Sem esse tripé, o crescimento pode esbarrar em limitações estruturais”, conclui Cristiane Fais.

Com o avanço das negociações internacionais e as transformações estruturais previstas para os próximos anos, o Brasil se encontra diante de um momento decisivo para consolidar sua posição no comércio global. A capacidade de planejamento e investimento em infraestrutura será determinante para transformar essas oportunidades em crescimento econômico sustentável.

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